Houve um dia em que eu acordei sem uma parte.
Embora eu tenha sido avisada, eu não pude crer.
Há muitas coisas das quais o meu coração não se lembra e mais ainda das quais não sabe, não compreende. Durante milhões de anos em que ele existiu, foram poucas as coisas que soube com certeza: uma delas, assim como todas as outras, não reflete nada do que sou ou fui nas milhões de vidas em que o senti bater entre o meu peito e minha garganta como agora, mas, sim, a vida de tudo e todos que a ele foi permitido sentir. Milhões de anos foram o suficiente para que meu coração me fizesse crer, mesmo depois de eu ter sido avisada, que a minha vida nunca seria só minha, pois ela nunca sobreviveria sem todas as minhas outras partes. Assim, sem hesitar, eu não pude crer - não só por ser doloroso, mas, também, por ver minha vida sobreviver e a parte que me faltava, faltar apenas fisicamente, visualmente, isenta de qualquer razão.
Houve um dia em que eu acordei sem muitas partes. Desde então soube que eu podia sentir o que não podia ver.
quinta-feira, 25 de março de 2010
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